Passivo tributário herdado em M&A no Brasil: como reduzi-lo em até 70%

Um grupo europeu adquire uma empresa brasileira. A due diligence aponta R$ 80 milhões em exposição tributária, juros e multas acumulados em anos de autuações discutidas. Ajusta-se o preço, cria-se um escrow, o negócio fecha. Três anos depois, o passivo continua lá e a subsidiária não consegue certidão negativa.

A solução que a maioria dos compradores estrangeiros desconhece existe na legislação brasileira desde 2020.

Por que o passivo não segue o vendedor

Na compra de participação societária, a dívida tributária é da empresa. Troca-se o sócio, o passivo fica. Em fusões e incorporações, a responsabilidade tributária transfere-se integralmente para a remanescente, nenhuma cláusula contratual resolve. Em operações de ativos, a aquisição de estabelecimento pode igualmente carregar dívidas fiscais do vendedor. E uma autuação pode levar dez anos até decisão definitiva, com juros e multa crescendo enquanto a certidão negativa some e cada financiamento, licitação e reorganização societária travam.

A transação tributária: o instrumento que muda o cálculo

Desde 2020, contribuinte e Fisco federal podem negociar o encerramento de débitos tributários por acordo, a transação tributária. Não é anistia: é mecanismo permanente, previsto em lei. Os resultados típicos:

– Redução de até 65% do valor total, ou 70% em situações específicas, como recuperação judicial

– Parcelamento em até 10 anos

– Uso de prejuízo fiscal e base negativa de CSLL como moeda de pagamento de até 70% do saldo remanescente

– Imediato: suspensão de execuções fiscais, liberação de garantias, recuperação da certidão negativa de débitos

Aplicado ao exemplo: o desconto leva os R$ 80 milhões para menos de R$ 30 milhões. O prejuízo fiscal acumulado reduz ainda mais o desembolso em caixa. O restante parcela em uma década.

Aderir não é o mesmo que negociar

O portal eletrônico da PGFN classifica automaticamente a capacidade de pagamento da empresa e entrega um desconto calculado pelo sistema. É rápido, mas nem sempre leva ao melhor resultado possível. A transação individual, negociada diretamente com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, permite contestar essa classificação (que costuma estar errada para subsidiárias de grupos estrangeiros), selecionar quais débitos entram e construir uma proposta. A distância entre os dois resultados, em casos que conduzimos, foi medida em dezenas de milhões de reais.

Como isso entra na operação de M&A

Se o valor provável da transação tributária puder ser modelado durante a due diligence, o escrow é dimensionado pelo valor projetado, não pela exposição nominal. Um passivo de face R$ 100 encerrado por R$ 35 é uma conversa de preço completamente diferente. Do lado vendedor, resolver o passivo antes de ir a mercado costuma devolver mais do que custa.

Por onde começar

Levante a composição completa dos débitos federais (principal, juros e multa), verifique o estoque de prejuízo fiscal acumulado e revise a classificação de capacidade de pagamento *antes* de qualquer adesão ao portal, especialmente se a entidade estiver nas faixas A ou B, onde o sistema nega desconto e oferece apenas prazo alongado. Após a adesão confirmada, a posição de negociação encerra.

 

Por Ruy Campos e Juliana Zocrato

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